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sábado, 23 de março de 2013

Ronaldo Inc, muito mais que um sonhador

Quem nunca desejou viver do seu sonho? Poder trabalhar com o que gosta e ganhar por isso, verdadeiramente? É muito difícil ver acontecer, mas quando acontece, nos inspira. Conversamos com o artista plástico Ronaldo Inc que passou de uma pasta de desenhos na mochila para a arte, conseguiu viver do seu sonho e reconhece o quanto isso é difícil (porque essa história de que sonhou e realizou, pois era destino,  não cola mais, né!?).


Mica: Ronaldo, primeiro muito obrigada por topar fazer a entrevista, ficamos muito contentes. :)
Ronaldo: É divertido. Treinei muito no colégio respondendo questionário das meninas. Lembram?
Kelly: haha, caderno de perguntas!
Ronaldo: Tinha várias perguntinhas de adolescente. Eu trollava algumas respostas, claro.

Mica: Pra começar, conta pra gente como a arte entrou na sua vida.
Ronaldo: Desde pequeno eu desenho, tá no DNA... meu pai desenhava mas não trabalhava com isso. Como sempre desenhei, imagens e tudo relacionado sempre me encantou, aí à arte tornar-se um trabalho foi muito sutil e veio tardio talvez.
Mica: Antes você tentou outras coisas?
Ronaldo: Olha só a minha carteira de trabalho que underground: só tenho dois registros e são de office boy... hahaha Tentei trabalhos simplórios, o caminho era a arte mesmo e nem sabia.
Kelly: Os amigos que te incentivaram? Ou você mesmo olhou seus trabalhos e se sentiu confiante?
Ronaldo: Ah! A confiança veio junto com os elogios e críticas dos amigos. Andava com uma pasta de desenhos numa bolsa e mostrava pra deus e o mundo o quer que fosse.
Kelly: Ou seja, no fundo você sabia que poderia acabar dando certo? 
Ronaldo: Sabia que de tanto treinar ficaria bom. Agora a certeza quanto à dar certo comercialmente é tipo jogar garrafas ao mar e esperar elas voltarem com respostas. É muito louco o processo, me sinto uma espécie de "profissão repórter" fazendo uma matéria sobre como tornar-se artista e vencer.

Mica: Há quanto tempo você investe na arte como carreira?
Ronaldo: É um drama mexicano... há uns 10 anos, acho.
Kelly: Você chegou a fazer algum curso? Ou foi autodidata?
Ronaldo: Autodidata total, pois financeiramente não tinha condições de fazer algum curso mas tinha muita vontade. Aí de tanto treinar sozinho o traço próprio vai surgindo e muitas coisas que não são lecionados em cursos surgem no processo, mas acho cursos básicos de desenho essencial para o básico e só.


Mica: Como você se definiria enquanto artista? Tem um estilo que orienta os seus trabalhos?
Ronaldo: Antes o oriental era mais presente, mas não defino mais não.... É um mix de referências e muitas possibilidades de aplicar a arte que nem dá pra segmentar em um estilo. Falo por mim e pra mim, claro.
Mica: Alguns elementos são recorrentes nos seus trabalhos, como os gatos e o traço inc. Isso representa uma identidade?
Ronaldo: Representam sim. Os pássaros, as geishas, olhando cada item você chega um pouco mais próximo da personalidade do artista em música, cinema, enfim...

Kelly: Ronaldo, tenho curiosidade sobre o processo criativo. Você tem "hora" pra pintar? Digo isso porque geralmente as pessoas se incomodam com o barulho, daí optam pela madrugada. Enfim, como é? Rola música? Silêncio? O quê?
Ronaldo: Olha, música sempre. Não tenho hora específica, achava a madrugada melhor para desenhar e criar porém ando priorizando o sono e não varo mais madrugadas adentro. Mas a música é presente mesmo, sejam calmas ou caóticas.

Mica: Há artistas que te inspiram? Quem você considera relevante atualmente?
Ronaldo: Bastante me inspiram. Citar os atualmente... são muitos quase anônimos da mídia, sabe? Tem o Banksy que acho incrível e tem artistas da música que me inspiram no tocante da cultura que reflete no meu trabalho também. Ray Caesar é incrível, posso citar uns mil.
Kelly: Cadê Romero Brito? =P
Ronaldo: Meo deos... mas sabe gente, eu piro em biografias de seja quem for, gosto mesmo de saber a trajetória e tals pra ver como aquela pessoa chegou lá (ou não). Falei isso porque a história de Romero é aquela de vencer e tal, mas o cara é coxinha, né? Considerado tipo o Paulo Coelho das artes e tal. Não vou cuspir nesse prato vai... já li Paulo Coelho pra caramba, mas entendo o argumento dos críticos, tomo como experiência pra mim mesmo, para não me tornar coxinha nas artes.


Mica: Para você, qual o papel da street art no cenário das artes?
Ronaldo: Muito importante. Não só das artes, mas como cultura urbana mesmo, primeiro e melhor lá fora depois levaram mais à sério por aqui no Brasil. Mas street art teve seu boom aos olhos da mídia e ajudou muita gente que estava batalhando há tempos, deu respaldo, né, antigamente tudo era tachado de pixação. Ainda hoje com uma geração mais velha ainda é, mas tá acabando.
Mica: Confessa que você começou pixando muro vai! hahaha
Ronaldo: hahaha, pior que não! Nem tag em trem eu fiz! A maioria começou assim mesmo, mas minha história de arte não começou com spray, que diga-se, comecei a usar bem mais tarde. Quem faz isso gosta da adrenalina sabe, de mostrar no dia seguinte para os brothers, quer ganhar conceito, não tem muito segredo. Eu tenho horror de tomar um enquadro pixando, não serviria para isso. Aliás nem faço minhas artes na rua por causa disso: ficar atento, não ser pego, ter que parar o que está fazendo pra dar explicações. Sempre tomo cuidado para não me colocar como "grafiteiro", pois nem nas ruas estou muito, do graffiti só me apoderei das ferramentas e das referências.

Mica: O que acha das mídias sociais como meio de divulgação de trabalho?
Ronaldo: Ótimas! Viver o nascer da internet, cá entre nós, é um privilégio pra nossa geração, hein. O trabalho chegar aos olhos de pessoas que você talvez nunca veja ao vivo é sensacional.


Kelly: Muita gente não tem a oportunidade de trabalhar com o que gosta. Conte como é, faça inveja nas inimiga. haha =P
Ronaldo: Nossa, sempre penso nisso, gente... já penei um bocado nessa trajetória. Aí nos momentos de fraqueza eu pensava sempre nesse privilégio, ainda mais no Brasil.
Kelly: Dá pra viver de arte no Brasil?
Ronaldo: Dá, mas depende de uma série de fatores de cada um: onde ele aplica sua arte, os contatos, a qualidade e mais contatos, rs.
Mica: O que você aconselha para quem está na luta ou sonha em começar?
Ronaldo: Ter um plano B. hahaha Treinar bastante e ver de perto se possível como funciona a coisa toda. Porque rola às vezes uma ilusão de glamour e quando acha que vai arrasar no SPFW vai parar numa boate na turquia, rs.

Mica: Tem algo que você gostaria de dizer e não perguntamos?
Ronaldo: Hmmm.. quero só deixar a minha opinião/conselho de que todo artista tem uma responsabilidade social e precisa colocá-la em prática! E tenho dito! hahahaha

Para admirar, comprar e contratar:
E-mail: contato@ronaldoinc.art.br

sábado, 15 de dezembro de 2012

A Lagarta de Fogo: Lara Fidelis


Mica: Lara já é tradição começarmos com o entrevistado fazendo um resuminho de si mesmo, para introduzir aos leitores. Então, conta pra gente, quem é Lara Fidelis?

Lara: Lara Fidelis é uma sonhadora. Uma pisciana que vive com a cabeça nas nuvens e os pés nas quinas dos móveis. E, de tanto sonhar, aprendeu a colocar seus devaneios no papel. Da poesia infantil, passou para os diários adolescentes, depois para o jornalismo, até criar coragem de mostrar seus textos para o mundo e lançar seu primeiro livro.


Mica: E como isso aconteceu, lançar um livro? 

Lara: Eu escrevo desde que me conheço por gente. Fui criada no meio de livros. Filha de pais jornalistas e também escritores. Meu pai tem mais de 30 livros lançados e foi indicado para o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura. Na verdade, eu sempre sonhei em ser médica, mas minha avó era enfermeira e me fez acreditar que era uma profissão muito sofrida. Quando parei para pensar o que fazer, percebi que o que eu fazia de melhor era ler e escrever, o que acabou me levando para o jornalismo. Meus pais não me influenciaram diretamente, mas crescer numa redação de jornal acabou me tornando uma apaixonada pelas letras e pelas notícias. Eu sempre tive meus caderninhos, escrevia em todo papel que encontrava. Mas nunca tive coragem de mostrar para o mundo. Então, num momento em que senti grande necessidade de mudar minha vida, comecei a fazer uma oficina literária. E lá comecei, enfim, a dividir meus rabiscos com as pessoas. Ao perceber que gostavam do que escrevia, inscrevi-me num concurso chamado Mapa Cultural Paulista. Mandei dois textos. Um foi finalista e o outro, vencedor. A partir daí, a ideia de lançar um livro se tornou ideia fixa.

Kelly: Então, a história do seu livro recém lançado 'Tsunami' era algo que você já tinha em mente por anos, ou simplesmente surgiu uma inspiração e você se dedicou/entregou à ela?

Lara: A ideia já existia desde que venci o Mapa Cultural Paulista, em 2007/2008. Na verdade, acho que sempre existiu. Mas lançar um livro no Brasil é algo complicado. As grandes editoras dificilmente investem nos novatos. E eu não queria pagar para publicar um livro. Então, resolvi inscrever meu projeto de livro no ProAc - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. E, para minha felicidade, fui escolhida entre centenas de autores de todo o Estado. Ao vencer o ProAc, assinei um contrato com o Governo do Estado. Eles bancariam a edição do meu primeiro livro, ficariam com 20% da produção para bibliotecas públicas, e o restante eu poderia distribuir como quisesse. Foi juntar a fome com a vontade de comer!


Mica: Conta como foi a noite de autógrafos.

Lara: As noites de autógrafos foram sensacionais. Aqui em Santo André, fiz em uma livraria, que é quase um patrimônio cultural da cidade. Foi uma delícia ver a fila de amigos esperando autógrafos. Eu não conseguia parar nem para beber água! Em São Paulo, fiz no Piola, uma pizzaria moderninha que investe muito em cultura. Lá rolou coquetel e um espaço muito bom para a exposição das fotos que ilustram o livro. Foi outra noite linda. E o melhor: apareceram muitos amigos que eu não via há tempos. Além de lançar o meu “bebê literário”, pude reencontrar muita gente bacana que andava sumida. Eu fiquei muito feliz. Não sabia que era tão bom lançar um livro. 

Mica: Sobre o Tsunami, qual o formato do livro?

Lara: Desde que comecei a alimentar o sonho de publicar um livro, imaginei algo diferente. Não queria um livro comum, só com textos. Eu queria uma diagramação diferenciada, ilustrações bacanas. Enfim, queria unir meu texto a um projeto gráfico legal. Convidei um amigo fotógrafo para ilustrar o livro. A princípio, eu pensava em utilizar fotos que já estivessem prontas. Mas ele mergulhou de cabeça no projeto. Leu todos os contos, conseguiu extrair a essência de cada um e produziu lindas imagens. Cada conto é ilustrado por uma foto exclusiva, produzida pelo grande Maurício Ercolin,um fotógrafo de rara sensibilidade.


Mica: Nossa, isso é incrível! Adorei o diferencial! Por que Tsunami?

Lara: Tsunami é um nome de um dos contos. Porém, resume a ideia do livro, que é um “tsunami” de emoções, sentimentos, paixões, ódios, vazios... O conto Tsunami fala justamente de como os sentimentos se banalizaram, só que de uma forma muito surreal. Ao montar o projeto do livro, achei que o nome captava bem a essência dos meus textos.

"Você tem fome de quê? E eu respondi: de renascimento"

Mica: Lara, posso voltar um pouquinho no assunto? Queria que você falasse mais da oficina literária: onde era, como funcionava, se ainda rola?

Lara: A oficina foi um divisor de águas na minha vida. Eu vivia uma relação desgastada, não me reconhecia mais, não enxergava mais a Lara. Um dia, por acaso, recebi um folheto que falava da Casa da Palavra, um espaço cultural da Prefeitura de Santo André, que promove uma série de eventos literários. Na época, havia uma programação muito legal. Fiquei tão empolgada que fui tomar um suco numa lanchonete na esquina da minha casa, entrei lendo o panfleto, não vi um degrau e quebrei o pé. Naquele momento, a imobilização me fez ver que eu precisava me mobilizar. Mesmo com o pé quebrado, fui até lá, fiz a matrícula e entrei num grupo chamado Poéticas da Oralidade. Era uma turma fantástica! Muitas cabeças legais, uma professora sensacional e aos poucos eu fui me redescobrindo. Alguns dos textos do livro foram criados nessa época e foram libertadores. Já no primeiro encontro, tivemos que responder à pergunta: você tem fome de quê? E eu disse: de renascimento. E então a borboleta começou a sair do casulo... 

Mica: Hm já deu a dica! É daí que vem o nome do seu blog? Fale um pouco dele.

Lara: Meu blog Lagarta de Fogo foi criado justamente para extravasar a necessidade de mostrar meu trabalho ao mundo. Antes, eu tive um blog chamado It Sounds Fish, que era bem bacana, mas que acabou morrendo quando virei mãe. Era um blog bem sarcástico, mas depois da maternidade eu só falava de filhos e senti que era hora de parar. Tempos depois, voltei à blogosfera com o Lagarta de Fogo, um trocadilho com a história da lagarta virar borboleta, mas como tenho os cabelos vermelhos a lagarta deveria ser de fogo! Eu gostava muito de escrever ali. Era um espaço bacana. Até eu perceber que estava me policiando de dizer certas coisas porque não queria que certas pessoas soubessem da minha vida. E o blog acabou parado também. Penso em retomá-lo, mas ainda não decidi se o faço renascer ou se crio um novo. A princípio, acho mais interessante a ideia de criar um novo...

Politicamente incorreta

Mica: É... nós bem sabemos como é isso de ter de se policiar pensando em quem vai ler... 

Lara: E tem outra coisa: hoje tudo está muito politicamente correto. E eu acho isso uma chatice. Não é sair por aí torpedeando todo mundo, falando mal das pessoas, mas a gente tem que pensar mil vezes antes de escrever qualquer coisa, porque sempre vai aparecer um ofendido ou um revoltado. Sinceramente, eu não suporto esse mundinho politicamente correto. Por isso, Tsunami é bem incisivo. Eu falo o que penso. Há contos ali que passam bem longe do politicamente correto.

Mica: Paradoxalmente, o mundo politicamente correto nos priva de liberdades e faz os seus defensores acreditarem que são portadores de uma verdade maior e, portanto, podem agredir qualquer um que ele não concorde com suas opiniões... 

Lara: Eu concordo completamente com você. Hoje, todo mundo se acha dono da verdade. Na época do Lagarta de Fogo eu combatia muito as privações de liberdades. Meti a boca na lei anti-fumo, por exemplo. E não fiz isso porque fumo. Fiz porque achei que feria o direito de ir e vir das pessoas. Naquela época, o governo queria proibir até a venda de coxinhas nas cantinas escolares e de quentão nas festas juninas. Cheguei a pensar que logo seríamos proibidos de contar piadas. Ou que haveria até uma fiscalização nos motéis: na hora H, chegaria um fiscal para perguntar se o casal estava usando camisinha...

Mica: Tem um outro lado seu que acho incrível, a Lara super mãe. Como é ser mãe de um casal e gêmeos?

Lara: Sempre quis ser mãe. Mas a maternidade surgiu de forma totalmente imprevista. Eu namorava há três meses e de repente engravidei. Já no primeiro ultrassom, com apenas um mês de gestação, descobri que esperava gêmeos. Imagine só: não esperava engravidar naquele momento e muito menos de gêmeos. Foi um susto e tanto! Mas desde que fiz o primeiro teste, aquele de farmácia, senti um amor incondicional. Não foi fácil, mas sempre foi de uma felicidade imensa. Eu crio meus filhos sozinha e tenho um orgulho imenso dos seres humanos lindos em que eles estão se transformando. É lindo demais você gerar uma vida e vê-la desabrochar. Imagine isso em dose dupla e ao mesmo tempo! É incrível!

Kelly: Diz a sabedoria popular que para o ser humano se tornar completo, tem que "plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho". Você já plantou a árvore? haha

Lara: Por incrível que pareça, só falta a árvore. Não consigo fazer uma simples violetinha sobreviver. Quando criança, o primeiro livro que li foi O Menino do Dedo Verde, que contava a história de Tistu, um menino que transformava tudo em verde. Acho que me encantei tanto com a história que desenvolvi uma vocação contrária: nenhuma planta sobrevive no meu apartamento! hahahaha!

Kelly: Hmm, você disse que cresceu com livros por perto. Quem foi seu escritor preferido? Teve alguém que influenciou na sua forma de escrever?

Lara: Eu sempre li muito. Costumo dizer que na casa em que cresci havia livros até dentro do forno. E o mais legal é que nunca houve censura. Com 15 anos, eu já tinha lido a obra completa de Nelson Rodrigues. Eu lia (e leio) até bula de remédio. Mas tenho uma queda especial pelos escritores latinos. Posso dizer que meu grande mestre, tanto na escrita como no jornalismo, é Gabriel Garcia Marquez. Quando terminei de ler Cem Anos de Solidão, chorei copiosamente e senti algo forte se transformando dentro de mim. É meu escritor favorito. Mas gosto também de Jorge Luis Borges, Isabel Allende, Eduardo Galeano, todos latinos. Dos brasileiros, tenho uma queda especial por Clarice Lispector,  Caio Fernando Abreu (que ganhou o Prêmio Jabuti no lugar do meu pai), João Guimarães Rosa, Mário Quintana, Jorge Amado... Se eu continuar, a lista não terá fim...

Kelly: Aproveitando que você citou Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, ambos se tornaram tão populares nas redes sociais, que por fim se tornaram odiados. O que você acha sobre isso? Justo? hahaha 

Lara: Acho muito injusto. São dois escritores maravilhosos. Clarice foi uma mulher à frente do tempo. Caio tinha uma linguagem ímpar, criou metáforas maravilhosas. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”. E os dois foram tão massacrados na internet, como se citar trechos de suas obras fosse algo extremamente intelectual, que chega a dar vergonha dizer que gosto deles. Tenho a impressão que isso acontece com outros fãs também. É lamentável, porque deixaram obras lindas que não mereciam virar piada. E muito menos ser odiados.

"Por esta ótica, da pra afirmar que qualquer leitura é válida, desde que mexa com o indivíduo, desde que provoque alguma coisa lá dentro"

Kelly: O que você acha da absurda popularidade de livros geralmente considerados "pobres", como Crepúsculo e 50 Tons de Cinza? Qualquer leitura é válida?

Lara: Eu adoro ver gente com livros. Fico me torcendo toda até descobrir que livro a pessoa está lendo ao lado. É mania mesmo. De certo modo, fico feliz em ver que o universo de leitores aumentou sensivelmente. Nunca vi tanta gente lendo ou comentando livros. As livrarias estão abarrotadas de lançamentos. Mas confesso que me choco quando encontro pérolas como a biografia do Vampeta. Provavelmente, ficarei mais chocada ainda quando encontrar alguém lendo isso... Mas penso que é melhor ler do que não ler. O cara que hoje lê Crepúsculo amanhã pode migrar para um Stephen King. A menina que lê 50 Tons de Cinza pode acabar querendo conhecer uma Hilda Hilst... Por essa ótica, acho que dá para afirmar que qualquer leitura é válida, desde que mexa com o indivíduo, desde que provoque alguma coisa lá dentro. 

Mica: Dos autores que surgiram atualmente, indica algum? 

Lara: Por incrível que pareça, eu não tenho lido os novos autores. Fiquei curiosa pelo tal 50 Tons de Cinza, mas ganhei o livro e ele simplesmente sumiu. Acho que minha estante não gostou e o engoliu... E estive tão envolvida com meu livro este ano que não sobrou tempo para outra leitura. Até porque eu tinha muito medo de ler algo que mexesse muito comigo e influenciasse meus textos. 


Kelly: Lara, já ouvi dizer que para escrever bem, basta praticar incessantemente. Você concorda? Para ser um bom escritor não é necessário a tal da vocação?!

Lara: Escrever, para mim, é algo que vem de dentro. É como se eu vomitasse as palavras. Elas vão saindo sem controle, muitas vezes de inspirações nada poéticas. Por exemplo: tenho um conto que surgiu enquanto eu comia um ovo frito e filosofava sobre o ovo. Acho, porém, que um bom escritor precisa de duas coisas básicas: conhecer bem o idioma e saber encadear as ideias. Com a internet, vejo muita gente que sabe bem uma coisa, mas não sabe a outra. Ou sabe as duas, mas não tem a inspiração para contar um fato. De qualquer modo, uma coisa é fundamental: saber ler - e ler muito. Um bom escritor é necessariamente um bom leitor.

Mica: Pra fechar Lara, tem algo que gostaria de dizer para os leitores?


Lara: Acho fundamental estimular a leitura entre as crianças. Eu tenho muitos livros em casa e sempre deixei ao alcance das crianças. Desde cedo, ensinei-os a respeitar os livros, tanto que nunca rabiscaram ou rasgaram algum. Acho que mesmo uma família que não tem o hábito da leitura deve dar livros para as crianças, levá-los a livrarias, contar histórias. Só assim poderemos construir mentes que pensam. E, depois, rola um orgulho de ver os pequenos lendo. As crianças pediram que eu autografasse o livro para elas. Cada um tem seu exemplar. E, outro dia, quando vi meu filhote lendo um conto que escrevi para ele, chorei como criança. É uma emoção muito forte. Para mim, a vida é mais ou menos como dizia Jorge Luis Borges: “O paraíso deve ser uma espécie de livraria”!

Tsunami
Contos brasileiros
De Lara Pezzolo Fidelis
Fotografias de Maurício Ercolin
RG Editores – São Paulo
128 páginas – R$ 30,00
Livraria Alpharrabio

sábado, 25 de agosto de 2012

Entrevista do mês: M., o vizinho


ONG's Protetoras dos Animais têm ganhado cada vez mais notoriedade na televisão e internet. Pelo facebook, por exemplo, podemos escolher qual seguir e acompanhar. Enfim, são muitas. Mas o número de ativistas [os que vão à protestos e que levantam do sofá pra dar a cara a tapa] é um número reduzido. 

Como é participar de uma ONG? Como é a vida de um ativista de verdade? Bom, eu tive a oportunidade de conhecer e ser amiga de um, o qual chamo de 'vizinho' por motivos óbvios, hehe. Acompanhei um pouco da vida do entrevistado de hoje [que prefere não ser identificado pelo nome por motivos de segurança] e pedi pra ele contar um pouco pra gente o que rola na real.

Kelly: Vizinho, começo te perguntando sobre o início da sua paixão por animais. Como que tudo começou?

Leoa Harama: era de um circo, tinha vários problemas neurológicos (por isso ficava com a lingua pra fora). Antes de ir pro Rancho, ela morava numa carreta que era muito pequena. Sempre que ela se virava, batia com a cabeça nas grades. Vários anos assim, ela acabou ficando com sequelas.

Na verdade não me lembro muito bem como começou, mas eu sempre tive animais em casa. Lembro que eu morava em um condomínio, devia ter uns 12 ou 13 anos, e tinham muitos gatos no condomínio (muitos mesmo)... e uma vez eu vi da janela de casa uns meninos de outro prédio matando um gato a pauladas. Nesse momento meu deu um 'estalo', sei lá o que houve. Na hora não fiz nada pois fiquei sem reação, mas isso aconteceu outras vezes e aí acabei arrumando briga, batia e apanhava quando via algo do tipo, pra tentar salvar aqueles gatos dessa situação, acho que foi mais ou menos por aí. Depois veio a internet e comecei a conhecer outras pessoas que tinham ideias parecidas com as minhas e um tempo depois houve um protesto na Avenida Paulista em SP, fui convidado a ir, e aí tudo começou a ficar mais sério e organizado.

Mica: Hoje você trabalha em alguma ong ou projeto de defesa dos animais?

Atualmente não, mas ajudo de forma 'solitária'. As ongs que trabalhei todas são de SP e hoje moro fora do estado de SP, onde as pessoas ainda não tem tanto envolvimento com esse tipo de 'causa'. Na universidade que estudo mesmo, tem muito animal abandonado e eu sempre tento levar ração, medicamentos, tudo o que consigo para ajudá-los, até adotei 5 gatos que viviam lá. Mas enquanto morava em SP era muito envolvido com algumas ongs, meus dias eram quase 100% dedicados a isso. Ainda voltarei a 'forma' antiga. :)

Kelly: Conta pra gente como que foi o seu primeiro protesto e o que rola por lá. Pela internet, conseguimos acompanhar algumas coisas, mas não temos acesso a tudo e como funciona, enfim. As pessoas que participam, que vão pra Paulista, por exemplo, são pessoas engajadas na causa ou rola de aparecer gente para um simples 'oba-oba'?

Esse primeiro protesto na Paulista, se não me engano, foi contra Rodeios (que é uma das coisas que mais luto e lutei até hoje). Eu cheguei lá no horário marcado pela internet, vi uma pequena aglomeração, fui chegando meio tímido como sou e já me deram uma faixa pra segurar, haha. Daí pra frente fui conversando com o pessoal, trocando telefones, fiz grandes amizades esse dia, amizades que tenho até hoje. Pessoal querendo aparecer tem em todo lugar. Acho que nessa época até não tinha tanto, mas hoje em dia esse tipo de 'causa' tem aumentado o número de adeptos e isso atrai os oportunitas... inclusive agora em época de eleição, tem muito candidato a vereador/prefeito que quer tirar uma casquinha disso, dizendo que são protetores, que resgatam animais, mas que na verdade o máximo que tem em casa é um bichinho de pelúcia.


Mica: Nos últimos tempos, acompanhamos alguns casos que ficaram famosos pela crueldade e pela cobrança para mudança na legislação. Como você analisa o cenário atual? Há avanços reais?

Avanços tivemos, mas como podemos ver nesses casos, também tivemos alguns retrocessos. Muitas cidades hoje já proibem Circos com Animais e Rodeios, como a própria cidade de São Paulo e Campinas. A Vaquejada também é proibida em muitos lugares como Santa Catarina. Porém as pessoas que deveriam fiscalizar esse tipo de crime (no caso as Polícias e Ministério Público) em algumas situações se omitem, às vezes por falta de conhecimento da própria legislação, mas às vezes por não concordarem ou serem adeptos a esses tipos de crueldades. Conheço muitos policiais que adoram rodeios e que se eu quiser algum tipo de proteção para conseguir fiscalizar algum evento desses, vai ser difícil conseguir, talvez só com ordem judicial, coisa que não precisaria se todos seguissem realmente o que manda a lei.

Kelly: Falando sobre Rodeios [que têm força no interior de SP], quais os perigos ou ameaças que você já sofreu por encarar algo envolva tanto dinheiro?

Já sofri todos os tipos de ameaças que você pensar: tanto por internet, telefone e pessoalmente. As cidades em que estive mais atuante contra rodeios foram Americana, Limeira, Piracicaba e Cordeirópolis, e em todas elas tive algum tipo de ameaça de pessoas ligadas a esses eventos. Mas acho que o mais marcante foi mesmo em Piracicaba.
Eu estava na casa de um advogado, próximo de onde seria realizado o evento, me preparando para sair e fiscalizar o barulho que a festa produzia (pois conforme determinação do ministério público local, o nível de barulho não poderia ultrapassar o limite determinado na época), e quando fui sair do condomínio onde morava o advogado que estava me ajudando no momento, 4 motoqueiros estavam nos esperando do lado de fora. Então o porteiro do condomínio pediu para que voltassemos pra dentro e ligou para a Polícia Militar, que ao se aproximar do local, os dispersaram. Mas fora esse dia, tiveram outros, como em um dia que estava sendo realizado provas de rodeio irregulares em Limeira, e eu de posse de uma medida liminar que proibia a realização desse evento, fui até o local com a Polícia Militar, recebi vários xingamentos e até tentaram me laçar, hahaha.

Mica: Você tem informações sobre como essa legislação é em outros países? Há exemplos a serem seguidos?

Olha, é claro que em alguns pontos, tem muitos avanços e vantagens em relação ao Brasil, mas em outros não difere muito. Exemplos simples são o Japão e sua caça as baleias, que é acobertada pelo próprio governo (que diz que a caça é feita para pesquisa e somente por isso), mas sabemos que no Japão a carne de baleia é muito apreciada. Além disso temos o Canadá com a matança de focas, a China com a matança de cachorros e ursos. Acho que a crueldade infelizmente é parte da maioria dos seres humanos, independente do país que vivem, assim como pessoas matam pessoas, fazem guerras, elas são cruéis com animais, independentemente de legislação. No entanto, é claro que pena mais severas, inibiriam um pouco dessas atitudes, mas não podemos ser inocentes a ponto de acreditar que isso terminaria. Nos EUA por exemplo, existem departamentos de proteção para animais, que tem poder de polícia, podem prender, invadir residências, dentre outras coisas para tentar proteger animais.

Kelly: Você chegou a trabalhar em duas ongs e provavelmente acompanhou o resgate de animais maltrados e afins. Você tem alguma história que te marcou durante este tempo de atividade? 

Na verdade foram 3. Não sei se devo citar quais, mas uma delas foi o Rancho dos Gnomos. Enquanto estive nela, o resgate que mais me marcou foi o de um potrinho atropelado por uma moto. Era de madrugada já quando a Guarda Municipal chegou no portão do rancho e ficou tocando a sirene para acordarmos, então fomos ver o que era e nos informaram da situação. Pegamos a caminhonete e fomos até o local, chegando lá estava o animal caído na via, com a mãe do lado, os dois muito agitados, ele tentando se levantar, mas estava com um ferimento muito grande e não conseguia. Então eu e o pessoal do Rancho, com a ajuda dos guardas municipais, conseguimos colocar o animal na caçamba da caminhonete e o levamos para o Rancho. Mas não tinha muito o que fazer a não ser aplicar remédios contra a dor, ele estava muito ferido, lembro que fiquei a noite toda com ele, até amanhecer, que foi quando ele morreu.

Mica: Ai que triste... E uma história boa, dessas que dá ânimo para continuar?

Na verdade eu não queria ter ânimo pra continuar, queria que nada disso fosse preciso. Às vezes, isso tudo faz até mal pra mim, fico sem dormir pensando em algo que vi, algum animal que não pude ajudar e tudo mais, porém é mais forte que eu, qualquer animal que vejo em risco, eu ajudo sem pensar nas consequências, depois quase sempre me ferro (financeiramente falando). Acho que vale a pena, é minha missão e vou cumpri-la sempre. Acho que estou devendo para todos os veterinários da minha cidade. Já levei vários animais atropelados que encontrei por aqui aos veterinários e sempre fica muito caro, mas eu só vou pensar nisso depois.

Mica: Sabemos que é uma causa que precisa de muita gente e muitos recursos. Quais os meios ou quais ongs e projetos você indicaria para quem quer se engajar?


Acho que indicar uma é difícil, mas pra quem quer ajudar, acho que a melhor maneira é procurar alguma ONG local, ver quais são as necessidades dela, ou até mesmo pela internet, ajudando na divulgação de eventos por exemplo, pois a maioria das ongs sobrevive de doações e eventos realizados (como bingos, etc). E é claro, não ter preguiça de ajudar, pois é um trabalho desgastante, e que não tem dia pra ser feito, feriado, final de semana, não tem dia certo pra nada. Quando ver algum tipo de animal precisando de ajuda, faça o óbvio, ajude! Aliás, aproveitando, queria lembrar o pessoal que dirige e que está sujeito a atropelar animais e pessoas (às vezes é inevitável), se isso acontecer, pare e ajude, não deixe o animal caído na pista. Leve para alguma clínica, converse com o veterinário, explique a situação, tenho certeza que ele será compreensivo, ajudará no preço, ajudará a doar quando o animal ficar bom. E se precisar, faça campanhas pelo facebook, internet, para ajudar a pagar, tem sempre gente disposta a ajudar com as despesas. Muitas vezes esses animais atropelados, ficam vivos, agonizando por horas, caídos nos canteiros, acostamentos, às vezes até passamos por eles achando que já estão mortos, mas estão apenas caídos alí, sem forças. Sempre quando vejo algum animal caído, por mais que pareça que já está morto, eu paro para ter certeza.

sábado, 23 de junho de 2012

Entrevista do mês: A.


A. é um amigo forte, carinhoso e verdadeiro que um dia recebeu uma notícia ruim, algo que ronda a todos nós e achamos que nunca irá acontecer. Hoje, ele nos conta como é se descobrir e viver soropositivo. Peguem os lencinhos e deliciem-se.


Mica: Como você descobriu que estava doente?



A.: Bem, na verdade, eu descobri muito por acaso. Sempre tive muito problema em ganhar peso. E a partir de Fevereiro/2011, além de não ganhar peso, comecei a perder. Na minha cabeça, poderia ser alguma coisa do tipo anemia, falta de vitaminas. Enfim, fui primeiro ao clínico geral. Ele solicitou diversos exames de sangue, de urina, e perguntou se poderia fazer exame para a HIV. Eu concordei. Depois de alguns dias, peguei o resultado e lá apareceu a temida palavra "Reagente".

Mica: E como foi olhar para essa palavra? O que você sentiu?

A.: Lembro que foi como se o meu chão desabasse. Quando apareceu o resultado de "reagente" minha primeira impressão foi "Meu Deus, tenho AIDS?... talvez seja um resultado falso". Junto com esse exame estava a convocação do laboratório, para fazer um segundo exame para confirmação de resultado. Eu respirei fundo, não me desesperei nessa hora. Levei os exames pro clínico geral. Ele olhou os exames, olhou pra mim e disse "Vou encaminhar você a um infectologista". Eu sentado, na cadeira, de frente pra ele, indaguei "mas eu não preciso fazer o segundo exame? e se esse resultado tá errado?". Ele me respondeu, que além desse resultado, eu apresentava outras características que não eram aparentes como gânglios inchados na virilha, nas axilas e no pescoço.

Mica: Sintomas que, acredito, a maioria das pessoas desconhece. O que aconteceu depois disso?

A.: Exato, são sintomas que não aparecem. Eu jamais pensei que estava com meus gânglios inchados. Mas os médicos sabem analisar, estudaram pra isso. Bem, ele me encaminhou ao infecto e lá fui eu procurar um infectologista que atendesse pelo meu plano de saúde. Encontrei um, marquei a consulta, e levei os exames. O médico infectologista olhou os exames e me disse "Bem, você está infectado pelo HIV. Você tem noção, sabe o que é essa doença?" eu respondi que não, e ele me explicou por uns 20 minutos tudo sobre o HIV e também sobre as outras doenças, que chamamos de oportunistas, que poderiam me acometer. Eu suava frio no consultório, com a explicação dele. Depois eu perguntei o que seria dali pra frente. Ele pediu um batalhão de exames, mais de 20, incluindo exames para saber se eu tinha alguma doença oportunista, que é o mais preocupante para quem tem HIV.

Mica: Como é saber que está infectado? Como fica a mente e o coração?

A.: Ao sair do consultorio do infecto, embora estivesse suando frio, ainda estava forte. Mas quando fui pro carro, desabei a chorar. Tanto que o manobrista do estacionamento veio até minha janela, perguntou se tava tudo bem. Eu respondi que sim e minha reação após isso foi ligar para meu melhor amigo, que estava no trabalho. Pedi pra ele me ligar a noite, que precisava muito falar com ele. Vim pra minha casa, engolindo choro. É uma sensação horrivel. Eu ficava me perguntando, mas porquê, como, quem me passou o virus? Sempre fui e sou muito racional, e ao chegar em casa, já não estava mais chorando, e fui direto pra internet, pesquisar no Dr Google, o que eram aqueles mais de 20 exames de doenças, que o infecto tinha solicitado. É de dar medo, muito medo, ao ler o que cada uma dessas doenças pode causar.

Mica: Pode nos explicar um pouco sobre essas doenças?

A.: Claro. A mídia fala muito sobre o HIV, há campanhas na televisão, como por exemplo, no carnaval, pedindo para as pessoas fazerem sexo seguro, usar camisinha etc. Mas não falam sobre essas outras doenças. Vou citar algumas, que graças a Deus, eu não tenho, mas que são fatais em um paciente com HIV. São elas: sifilis, hepatite c, tuberculose. São elas que matam os infectados, e não o HIV. Em uma pessoa sem o HIV, tais doenças não causam mal algum. Mas em quem tem o HIV, essas doenças levam à morte, caso o HIV não seja tratado. Do rol de doenças oportunistas, eu tenho que me preocupar apenas com uma, chamada toxoplasmose. Ela acomete o cérebro do paciente que não trata o HIV.

Mica: Você falou sobre achar um infecto que atendesse ao seu plano de saúde. Há dificuldades nesse sentido? O tratamento, médicos, medicação, exames têm cobertura?

A.: Não foi dificil encontrar um infectologista que atendesse pelo meu plano de saúde. Minha maior preocupação, por incrível que pareça, não era saber se eu iria morrer logo, se eu estava já fadado a morrer por causa do HIV. E sim, eu morria de medo que o plano de saúde não autorizasse os exames, as consultas. Ou pior ainda, comunicasse a empresa que eu trabalho, dizendo "ó, tem um funcionário de vocês que está fazendo exames relacionados ao HIV". Isso me tirou o sono por várias noites, é o medo de você não querer que as pessoas saibam que você tem HIV. Mesmo no laboratório, ao fazer os exames, tem algumas atendentes que não conseguem disfarçar. Parece que elas estão digitando os exames, e pensando "coitado, esse ai tem AIDS".  Com relação a medicação, nenhum plano de saúde oferece cobertura. Mas pra falar sobre medicação, eu tenho que explicar como e porque alguns infectados começam a tomar remédios, e outros passam anos sem tomar nenhum remédio.

Mica: Estamos ouvindo!

A.: Entao começarei a falar rs. Todo portador do HIV, tem que se preocupar com 02 resultados nos exames. Um, chamado de CD4, que são as células de defesa do nosso organismo, que são infectadas pelo HIV. O vírus, destrói as células CD4s do nosso sangue. Em uma pessoa sem o HIV, a contagem de CD4 normal varia de 1500 a 1800 por milímetro de sangue. Meu primeiro CD4, estava 586 por ml de sangue. O outro resultado que deve ser analisado, é a Carga Viral, que é a quantidade de virus que existe por ml de sangue. Meu primeiro exame, deu 24.000 por ml.. Quer dizer, haviam  24.000 bichinhos por milímetro de sangue em meu corpo, destruindo lentamente minhas células de defesa. Ao levar esses primeiros resultados ao infecto, ele me disse: "vamos acompanhar. Por enquanto, você não precisa se preocupar, mantenha sua vida normal, e faça o acompanhamento de 3 em 3 meses". Passados 3 meses, refiz os exames, e minha taxa de CD4 abaixou mais ainda. Poucos dias depois do segundo exame de acompanhamento, tive a primeira doença oportunista, tive Herpes Zoster, que as pessoas chamam de "cobreiro". Isso, foi em Novembro/2011. Fui no clínico geral, tratei essa doença, e quando retornei ao infecto, disse a ele o que tinha acontecido. Ele me disse, "você já teve 1 manifestação clínica, se acontecerem 02, temos que entrar com remédios". Em Fevereiro/2012, tive uma segunda complicação, sapinho no esôfago. Foi o gatilho inicial para iniciar a medicação para combater o HIV.

Mica: A medicação é cara? Tem efeitos colaterais? Isso mudou sua vida?

A.: Sim, os remédios para combater o HIV são muito caros. Mas todos os brasileiros infectados, podem e têm os remédios distribuidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saude. Está disponível, a todos que tenham o HIV. Eu atualmente, tomo 1 remédio de manhã e 02 a noite. Hoje em dia, só morre de HIV quem não tratar. Há muitas opções de remédios e estou consciente de que terei que tomá-los para sempre. Minha vida mudou sim. Agora, tenho horários para os remédios, não posso esquecer de tomar nenhum deles. Parei de beber, não bebo mais uma gota de álcool. Tento levar uma vida saudável, continuo fazendo tudo que fazia antes, exercícios físicos, trabalho. Os primeiros dias do remédio são os piores, pois eles são muito fortes e podem dar muitos efeitos colaterais. Por sorte, se é que posso chamar assim, tive apenas efeitos colaterais totalmente suportáveis, fora um sono sem fim, que vai passando conforme o corpo vai se acostumando. O pior remédio é o da noite. Ele é grande e até hoje me dá efeitos colaterais fraquinhos... eu costumo dizer é como uma brisa rs. Nos primeiros 20 dias nem saía de casa... agora, já saio e estou totalmente acostumado à medicação.

Mica: Você contou para sua família? Como eles reagiram?

A.: Sim, contei para minha mãe... ela se assustou, me abraçou, assim que disse ela ja ficou com medo que eu morresse, que ficasse numa cama, pois ela viveu uma época em que ter HIV era sinônimo de morte, de pessoas esqueléticas, isso ficou e fica guardado na cabeça dos mais velhos. Acho que na cabeça dela, eu ficaria igual o Cazuza quando revelou que tinha HIV no final dos anos 80. É o estigma da doença, que persiste até hoje.

Mica: E os amigos?

A.: Apenas três amigos sabem que eu tenho essa doença. Todos eles me escutam, ouvem meus dramas, e acompanharam e acompanham tudo que tem passado comigo. Dividi com eles esses dias, a alegria de saber que graças a medicação, o meu CD4 aumentou para 436... e a Carga viral hoje está apenas 588/ml. A tendência é ficar no que os médicos chamam de indetectável! Ou seja... o vírus nunca sairá do meu corpo, mas através dos remédios eles ficarão dormentes no meu sangue, sem se multiplicarem. É o que espero, é o que meu infectologista disse, e é no que confio!

Mica: A forma tranquila como fala e explica, a força que demonstra é emocionante! O que você diria pra quem passa pela mesma coisa?

A.: Eu diria várias coisas! Diria primeiro não tenha medo de ir fazer um exame de sangue para saber se tem HIV ou não. Se você teve alguma relação sem proteção, a camisinha estourou, não fique encanado. Vá, faça o exame. Se você não tem plano de saúde, procure uma unidade de saúde pública mesmo. Faça o teste. Se der negativo, ótimo! Se der positivo, enfrente o que tiver que enfrentar. E não acredite em tudo que ler no Dr. Google. O cara mais indicado pra te ajudar caso você tenha o HIV, é o infectologista. Ele estudou pra isso, ele sabe e responde todas as suas dúvidas. É importante se abrir com alguém também, alguém que você confie e não te julgue. Hoje em dia, ter HIV não é mais uma sentença de morte. Se você descobrir a tempo, é como uma doença crônica, que você tratará pelo resto da sua vida. Isso é o que eu posso dizer a quem tem HIV e já sabe. Tenha pensamento positivo sempre!

Para se informar: www.aids.gov.br 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Entrevista do mês: Rafael Caldas


O entrevistado deste mês é o Rafael, 23 anos, programador, louco por tatuagens! Adora música e diz que de certa forma se considera um “formador” de opinião. 

Kelly: Sobre ser um formador de opinião, você sente que influencia seus amigos? É por isso?

Rafael: Deixe-me explicar melhor: acredito que todos nós que fazemos utilização de uma rede social somos formadores de opiniões de um certo modo. Afinal de contas, tudo que ali é escrito faz o leitor pensar, refletir, ter idéias sobre determinados assuntos e tento utilizar isso como ferramenta para trazer questões úteis e que façam com que as pessoas fiquem menos, digamos... alienadas.


Mica: Algo como pensar antes de postar! Interessante, antes era pensar antes de falar. Isso tem relação com o seu projeto, o Just Smile?

Rafael: Na verdade Mica, o Just Smile pode servir como exemplo. A ideia do projeto Just Smile é simplesmente fazer com que as pessoas consigam enxergar as pequenas  coisas que acontecem ao seu redor e que podem fazer toda a diferença no seu dia a dia. Mostrar à elas como pequenas atitudes podem mudar o ambiente ao seu redor, tornando a vida das outras muito melhor, formando uma corrente de felicidade. As redes sociais também podem ser usadas para isso e é essa a mensagem que queremos passar... tentando influenciar outros a seguirem a mesma ideia.

Kelly: Esta ideia de ser feliz e tornar outras pessoas felizes sempre te acompanhou ou foi devido a algum fato na sua vida que, de repente você percebeu que 'precisava fazer a diferença'? Como que isso começou?

Rafael: Kelly, eu sempre fui do tipo de pessoa que se importa muito com as pessoas ao meu redor, tanto aquelas que eu consigo ver e conheço, quanto aquelas que eu não conheço... na minha opnião, a felicidade e o bem estar dependem de todo o conjunto entendido como sociedade, e a grande dificuldade hoje em dia é esta ideia cultural de que o individual é sempre o mais importante. Isso faz com que as pessoas ajam danando de certa forma o espaço e a vida das outras sem pensar que tipo de consequência isso pode trazer. É algo como “a felicidade é contagiosa mas infelizmente o mau humor também”. A sua atitude no ambiente reflete direta e indiretamente nas pessoas ao redor. Um belo dia na internet assistindo alguns videos como de costume mostrei o vídeo de um conhecido V-Log americano a uns amigos que compartilham da mesma ideologia que eu. Neste vídeo o dono do V-Log espalhava pela cidade cartazes com mensagens motivadoras para a população como “eu te acho lindo”, “continue com o bom trabalho”, “tenha um bom dia”, que são mensagens simples mas que ao meu ver fazem toda a diferença no dia a dia das pessoas no geral. A ideia foi amadurecendo e acabamos por criar o Just Smile.

Mica: Isso tem quanto tempo? Como são feitas essas intervenções?

Rafael: Mica, a idéia do Just Smile é um pouco recente ainda, deve ter aproximadamente 2 meses, mas conseguimos um ótimo resultado com as primeiras intervenções. Por hora estamos com pouca atividade porque provavelmente em breve faremos algumas mudanças no projeto. Nossa idéia agora é também levar alegria e ajudar as pessoas mais necessitadas. Estamos formulando um Projeto mais concreto que em breve poderá se tornar uma ONG. Anda cada vez mais difícil organizar isso pelo tempo que nos resta entre trabalho e faculdade mas acho que é tão gratificante que no fim sempre vale a pena. 


Kelly: Muito legal mesmo! Antes de falarmos do 'novo projeto' em si, ainda sobre o Just Smile, na fanpage já são 500 e poucas pessoas que curtiram a página. Em 2 meses, isso é considerado um sucesso. Vocês pretendem aumentar a equipe tendo 'representantes' no Brasil todo? Ou pretendem deixar o projeto entre vocês? Qual é a ideia?

Rafael: Esses 500 likes que conseguimos, na realidade foram em grande maioria, na primeira semana de projeto. Isso nos deixou muito felizes porque na verdade, não esperávamos um crescimento tão rápido! O projeto foi muito bem aceito nessa primeira intervenção dos cartazes que fizemos como resposta ao video que nos inspirou o projeto, planejamos até o fim do proximo mês gravar um curta como vídeo resposta ao dono do V-log, mostrando a ele que a ideia foi passada adiante e que causou impacto nas pessoas. A nossa ideia é fazer com que mais pessoas se influenciem dessa ideologia e façam a diferença na vida das pessoas que a rodeiam, todo aquele que ler e que quiser participar sempre será bem vindo. Sei que pode ser um pouco utópico dizer isso mas não nos limitamos só ao Brasil, tenho vários amigos que compartilham da mesma ideia no exterior. Acho que é algo que pode fazer grande diferença em qualquer lugar, basta as pessoas agirem em prol das outras, e são atitudes tão simples e pequenas que não custam nada, isso já existe dentro de todos mas queremos trazer isso para fora.

Mica: Quais os lugares onde já fizeram intervenções? E você tem alguma história para contar sobre esses momentos? Algo que viu ou que alguém te disse no momento que estava rolando a intervenção?

Rafael: Hmmm, tem várias coisas interessantes que aconteceram nos momentos em que estávamos fazendo intervenções. Um dos primeiros lugares que escolhemos foi a Av. Paulista,  porque lá há um grande movimento de pessoas todos os dias e lá acabamos encontrando donos de Blogs e V-Logs, que curtiram a ideia e que ficaram um bom tempo debatendo conosco o que poderia ou não ser feito. Os efeitos da intervenção vinham sempre quase que imediatamente: colávamos o cartaz e ao olhar pra trás, as pessoas já estavam ao redor olhando e comentando sobre isso, vinham nos parabenizar e agradecer, é muito gratificante.
Ficamos um pouco chateados com alguns problemas que tivemos com a polícia, guardas metropolitanos e representantes do metrô... compreendemos que realmente não é a forma mais correta sair colando cartazes na rua e que isso de certa forma polui, mas acho que por uma idéia como essa não é tão ruim a ponto de nos repreenderem tão fortemente.

Mica: Nossa, que triste isso. Vemos tantos vídeos de diversos tipos de intervenção na paisagem urbana em outros países, tanta gente produzindo arte pelo mundo, e somos obrigados a lidar com um tipo de repressão tão primária...

Kelly: Que chato... Mesmo com essa resposta da polícia, há como o projeto continuar com as intervenções ou vocês terão que fazer adaptações?

Rafael: Nós, na verdade, usamos como ponto de partida a ideia dos cartazes, mas acho que podemos ir um pouco mais além. Já pensamos em muitas coisas como por exemplo organizar Flashmobs demonstrando de alguma forma nossa ideia. Queremos organizar também eventos com free hugs entre outras coisas... acho que há muita coisa que podemos fazer pra demonstrar nosso projeto e nossa ideia mas como é tudo muito recente, temos muita coisa a estudar. Estamos colhendo ideias e elaborando coisas que possam transmitir nossa ideologia, trazer um simples sorriso no dia das pessoas.


Mica: Free hugs? Explica pra leiga?

Rafael: Então, a ideia do free hugs é já meio antiga: a galera sai pelas ruas com cartazes enormes de “abraços grátis” e saem fazendo palhaçadas e demonstrando amor pelas pessoas que não conhecem. Eu particularmente acho isso fantástico e podemos adaptar isso pra fazer que fique mais com a cara do Just Smile... quem sabe motivar as pessoas a abraçarem umas as outras sem que seja necessário estar em um free hugs (tá é claro que as pessoas não vão sair correndo por aí abraçando estranhos) mas seria legal. HAHAHA

Kelly: Hahah, pois eu imaginei que seriam pessoas abraçando gente que nunca viu na vida, sei lá, dentro de um ônibus, por exemplo... enfim, eu acho essa ideia linda, acho que renderia experiências legais. Mas ao mesmo tempo, não rola um 'medinho'? De ouvir um 'sai daqui'? 

Rafael: As pessoas realmente nem sempre estão receptivas. Tem pessoas estressadas e pessoas desconfiadas sim, mas acho que não chega rolar medo disso... o máximo que pode acontecer é a pessoa desviar de um abraço. Mas todos nós sabemos que dentro de todo mundo há aquela criança amorosa que precisa muito de carinho, por mais estressado que esteja. A ideia mesmo é ser mais pró ativo e trazer a felicidade de dentro de você pra fora, não necessariamente abraçando estranhos mas sim fazendo bem ao próximo de maneira geral.

Kelly: Rafael, 'fuçamos' o seu perfil e encontramos citações de 'Sócrates'’, 'Gandhi'’. Quem te inspirou/inspira para o que você é hoje?

Rafael: Bom, meninas, acho que eu não me inspiro nas pessoas mas sim nas ideias. Esses são grandes nomes de pessoas que tiveram grandes ideias e mudaram o mundo de alguma forma, que não tiveram medo de correr atrás e defender seus ideais, independente de quais fossem, que lutaram corajosamente contra todos aqueles que eram contra suas ideologias. Esse tipo de pessoa no geral me inspira, não só as que conhecemos dos livros mas todos que defendem com unhas e dentes seus ideais.

Mica: Rafa, comentamos muito sobre a frase do medo de amar* e como o amor sempre passeia pelo blog, que tal nos falar um pouco disso? 

Rafael: Ahhh, Mica, medo de amar? Acho que isso não devia existir, sério! O amor independente da forma e a que é direcionado é sempre bom. As pessoas não deveriam ter medo de viver e correr atrás daquilo ou de quem amam. O amor é um sentimento forte e meio assustador, mas todas as experiências que ele traz são magníificas! Acho que tanto as coisas boas e ruins que acontecem conosco nos trazem grande aprendizado e com certeza quando é por amor sempre vale mais a pena... digo sempre que pra se viver de verdade é necessário arriscar-se. Ame uma mulher, ame seu animal de estimação, ame sua ideologia, ame o mundo que vive, abrace a vida, faça loucuras e seja feliz! Porque a vida é curta demais pra ficar com receio de qualquer coisa que seja, e perder as oportunidades é desperdiçar vida! 

Kelly: Rafa, hmmm, hoje você é jovem e acredita no amor, na felicidade e nas pessoas. Com o passar dos anos, as pessoas vão perdendo a fé nos outros (se decepcionam, etc.). Como você se vê no futuro? Digamos que, daqui 10, 20 anos, como você acha que o Rafael vai estar perante o que acredita hoje?

Rafael: Kelly, acredito que você tenha razão quanto as pessoas acabarem por ficar desacreditadas da vida e das pessoas com o passar das decepções, mas no meu caso acho que isso não será um problema. Eu desde muito pequeno sempre fiz o que eu pude pra ajudar as pessoas, animais, plantas e tudo que existe e eu já tive vários problemas e dificuldades com isso. Já sofri bastante por amizade, amor, pessoas, incompreensão. Sinceramente, isso me fez amadurecer e isso já não me afeta mais. Hoje em dia, tenho uma gama de pessoas ótimas ao meu redor e com ideologias muito boas e, hoje posso dizer que também desenvolvi uma forma mais madura de refletir sobre tudo isso. Acho que daqui a uns 10, 20 anos estarei mais velho, talvez mais enrugado e com mais tatuagens, mas vou continuar a mostrar cada vez mais ao mundo como a felicidade é simples e está nas pequenas coisas da vida. Eu acredito que tudo pode mudar e que todo mundo pode ser feliz. Basta querer. Está tudo dentro de você, nesse ponto posso dizer que sou um homem que não desiste fácil, essa é a minha ideologia primária e acho que nada que possa acontecer vai mudar isso em mim.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista do mês: Samara Lis


Mica: A nossa entrevistada de hoje vai te ligar, mas prometeu não te levar para o poço se você deixar um comentário. E aí? Vai arriscar? 

Samara: Isso mesmo, não se intimidem. Fiz um juramento e o poço está em reformas no momento, então todos estão a salvo. Por enquanto...

Mica: Sam, tirando o nome de menina má, você assusta as pessoas?

Samara: Eu acho que não. Veja bem, sou uma pessoa legal, carismática, sedutora, capa da playboy. Acho que eu atraio mais as pessoas e não assusto nem um pouco. Hahaha brincadeiras a parte, eu acho que não...rs

Mica: Só no Mafia Wars né!? 

Samara: Ah, não pensei que iriam mencionar esse fato do meu passado. Sim, por conta do jogo, me envolvi com muitas pessoas do submundo que me levaram a assustar e matar muitos mundo afora. Quando o assunto é Máfia, temos uma questão de lealdade entre os membros e fiz muitas coisas pelas quais não me orgulho, porém, foram necessárias. Mas isso é passado, larguei a vida do tráfico, mortes e espancamentos, só levei comigo as amizades. Hahahaha

Mica: Essa é a Samara que a internet conhece - super jogadora do mafia. Mas fala pra gente sobre a Samara real. 

Samara: Sou uma pessoa de bem com a vida (calma, isso é muito clichê). É difícil falar sobre nós mesmos, mas antes de tudo, sou uma pessoa verdadeira. Se não gosto de algo, eu falo. Se gosto de alguém, me declaro. Se um amigo me pede ajuda, tento realmente ajudar.
Porém tenho defeitos, acho que nunca consegui terminar nada na vida. Sou ex-bancária, ex-estudante de jornalismo. Parece que não encontrei o que quero até hoje, mas ainda estou buscando. Sou uma jovem senhora, com grandes responsabilidades que vieram a mim desde cedo. 

Mica: Sua relação com a internet é muito forte, é fácil te encontrar online. Conta pra gente tudo o que já aprontou por aqui. 

Samara: Sabe quando alguém ganha a primeira bicicleta e não esquece? Foi quando ganhei meu primeiro computador e não esqueço mais, aliás, a primeira bicicleta eu também não esqueci, enfim... hahaahahaha Em meados de 1998/1999, minha mãe trouxe para casa um computador novinho. A ideia inicial era para agilizar em trabalhos de escola e a faculdade de Economia dela, mas eu peguei para conhecer pessoas. Achava fascinante os chats de bate-papo que hoje em dia eu abomino. Nessa mesma época entrei no chat do UOL, em Variados, sala O Bar. Me atraiu pois o chat era todo preto e fiz muitos amigos por lá. Ia em encontros que marcavam sempre em bares diferentes pela cidade. Conheci muita gente, pessoas que mantenho contato até hoje. Na época eu tinha 16 anos e muitos foram até em aniversário meu de 18 anos. Outros se casaram e tudo o mais... Depois disso enjoei e fiquei uns 2 anos no mIRC, por causa de uma rádio, em que eu moderava o bate-papo. Também conheci diversas pessoas e algumas amizades perduram até hoje.  Aos 19 anos comecei a trabalhar no Banco e cursar a faculdade de jornalismo ao mesmo tempo, então mal entrava na internet, mas fiz um blog que se chamava VIII Pecado Capital para jogar meus pensamentos e opiniões, larguei com o tempo e o provedor sumiu com ele...rs Em 2004 veio o Orkut e era dona e moderadora em uma comunidade sobre o seriado LOST. Conheci mais pessoas, fazíamos eventos (O DharmaDay).  Anos depois veio o Facebook, conheci vocês e o Máfia Wars, com o tempo o jogo enjoou também e mais amizades agreguei. Hoje estoy aqui. 

Kelly: Samara, sobre essa comunidade do LOST no orkut, foi a primeira comunidade da série, né? Foi nessa época também que você começou a ficar mais ligada em séries? E o que era o evento 'Dharma Day'?

Samara: Existiam várias comunidades sobre LOST, mas éramos a segunda maior, onde pregávamos a ‘’não ditadura’’. Todos podiam falar o que quisessem. ;) Com o passar das temporadas, um grupo de amigos resolveu fazer um evento, onde todos podiam sair da internet e se encontrar para tentar chegar a ideias que desvendassem aquele universo da série, claro que não dava pra fazer isso, mas era um debate de uma tarde inteira. Tínhamos patrocínios do canal AXN e da Disney, por exemplo. Era uma tarde inteira mergulhada nesse universo e com sorteios de box de dvds, camisetas... era muito divertido. Minha paixão por seriados é mais antiga, mas foi com Lost que aprendi a baixar um episódio e unir uma legenda, por exemplo (ai se o FBI ler isso!). Desde então não posso ver elogiarem um seriado que lá estou eu.


Mica: Eu fazia parte desta comunidade e nem imaginava quem era Samara Lis, acho isso louco. Lembro que uma vez me disse que fazia as “vigílias”. Depois surgiu a comunidade de Fringe com as “fringílias”. Teve seu dedo também?

Samara: Hahahaha creio que nisso há dedos de muitas pessoas, não tomo só como uma ideia minha, mas é divertido ver o quanto as coisas podem se espalhar e se transformar por aí. Na minha comunidade tínhamos a Vigília, em outra era ViRgILHA, tudo para não copiarmos uns aos outros. :) 

Kelly: Samara, você foi pioneira no mundo da internet. Participou de tudo o que surgiu até então, acho que você deveria ter sido convidada para o 'Desencontro' haha... Hmmm, sobre o que falava esse blog "8º Pecado Capital"? Foi na época que você estudava Jornalismo?

Samara:  Bom, eu usava o blog para aprimorar o que eu aprendia na faculdade. Fazia crítica sobre filmes que eu acabava de ver no cinema, por exemplo. Também reclamava sobre pessoas que te ligam cedo em um sábado para te vender produtos, eu era alvo fácil deles. Mas no fundo era só mais um blog onde eu falava sobre o cotidiano.  

Mica: Teve outros blogs depois? 

Samara: Não, pois com o trabalho e o namoro, eu não consegui mais dar conta desse, imagina me aprofundar em outro na época...rs Não gosto de deixar algo assim inacabado, a vontade em ter outro sempre surgia, mas a oportunidade não aparecia.  

Mica: Ah o amor! Adoramos este tema! Como está o amor?   

Samara: Ai, agora a saia ajustou, muito obrigada! hahaha Posso confessar? O amor nunca foi fácil, independente do que me faz bem, quando resolvi sair do closet aos 17 anos sendo sincera e aberta com a minha mãe.  

Kelly: Sua família aceitou facilmente?

Samara: Se eu disser que o resto da minha família só soube disso há um mês, vocês acreditam? Felizmente aceitaram muito bem, sou muito sortuda nesse aspecto. Mas a verdade é que nem a opinião do resto da minha família me importava, eu tinha receio, claro, mas o apoio da minha mãe, na época, era o mais importante pra mim. Ainda nessa época, minha mãe contou pra minha irmã, e o que me marca até hoje foi o que ela disse pra mim: ‘’Sá, eu sei de tudo e estou chateada por você não ter falado pra mim. Sou sua irmã, poxa. Eu te amo de qualquer jeito.’’ Ouvi isso quando ela tinha apenas 14 anos, me emociona até hoje. ;) No meio desse tempo, nem eu mesma sei porque escondi esse fato de amigos. Com o passar dos anos, me vi em meio a dezenas de rodas de amigos e apenas uma dessas rodas sabiam disso. Me sentia sufocada e por isso resolvi me abrir de vez a todos. Tive sorte também nesse aspecto, pois os amigos que não sabiam, aceitaram numa boa. 

Mica: Já pensou em voltar a bloggar? 

Samara: Penso sempre em voltar a bloggar, estava esperando a oportunidade e o momento certo. Acho que agora essas duas coisas se uniram e é por isso que topei na hora o convite para ajustar minha saia e integrar o MSMJ. ;)

* * *

MSMJ: E é com essa entrevista que apresentamos a nova integrante do blog. Com a chegada de Samara Lis, o MSMJ começa a segunda temporada. Não percam as novidades, basta continuar acessando. Desejamos muitas felicidades para a Claudinha sempre, que por motivos maiores precisou se afastar.  

segunda-feira, 12 de março de 2012

Entrevista do mês: Emerson Damasceno


Este cara entrou na nossa vida pelo Mafia Wars, ele foi Goodfather do MBR - Mafia Wars Brasil, um dos primeiros clãs de brasileiros e que se tornou um dos mais importantes. Advogado, blogueiro, tuiteiro, empresário e cearense apaixonado, ele vem aqui nos mostrar um pouquinho mais do seu trabalho e de suas paixães. 

Mica: Emerson, queremos mostrar no blog um pouco do seu trabalho. Conta pra gente um histórico de como começou a trabalhar com mídias sociais.



Emerson: Eu blogo, sou blogueiro, há mais de 10 anos. Comecei com o Anomia, meu primeiro Blog, em 2002. Depois disso, vieram as redes sociais, Orkut, Facebook, Twitter, etc e foi uma crescente. Mas mesmo antes da Internet eu já tinha uma ligação estreita com a informação. Seja pela própria comunicação social, onde comecei no Jornalismo em 1990 na Universidade Federal, seja com meu primeiro computador, no início dos anos 80. Era um tk-200 da prológica rsrsrs 

Mica: Como surgiu a ideia do Anomia? O blog continua o mesmo desde 2002?

Emerson: Não continua. Está parado. O que resta da idéia inicial do Anomia é mais o meu Twitter, que deu nome à minha conta que me fez mais "conhecido". Por isso me chamo EmersonAnomia no Twitter :) A ideia dele foi essencialmente sociológica. Anomia descreve um estado sociológico de um País sem regras, e na época em que criei o blog, o Brasil passava por isso. É um conceito de Émile Durkheim e coube como uma luva.

Cláudia: Desculpe a pergunta, mas é uma coisa que eu tenho muita curiosidade em saber. Acompanho vários blogs e twitters famosos. Como funciona essa vida de blogueiro, dá para viver disso, financeiramente?? Como é?

Emerson: Claudia, hoje eu sou menos blogueiro do que um empresário que atua em mídias sociais. Mas há diversos que conseguem sim, conheço vários inclusive. É um mercado crescente e altamente profissional. A explicação disso é até estatística: cada vez mais as pessoas vivem em ambientes online. Mais do que nas mídias tradicionais se observarmos os últimos meses, no que tange a crescimento. É desleal até. Por isso, na hora de formar opinião para comprar produtos ou serviços, elas recorrem cada vez mais à internet. Dessa forma, não apenas blogueiros, mas até mesmo usuários de redes sociais como o Twitter ou Facebook, fazem e ganham por publicidade. É importante destacar também que isso quer dizer que hoje é difícil demais falar-se apenas em pessoas que tem só blogs ou só Twitter. Todos convergem para os ambientes online e possuem diversos canais de relacionamento. O que difere os que têm mais sucesso são aqueles que têm conteúdo, são autorais. 

Mica: Acho impressionante acompanhar essa mudança. Como é para você, que atuou com produção de conteúdo e agora como empresário?

Emerson: Foi completamente acidental. Eu resolvi criar uma agência de marketing, meio apostando que o tempo "viraria" logo e poder-se-ía apostar nisso aqui no nordeste, ainda em 2010 quando não havia ainda por aqui. Acabei que dei sorte. E no ano seguinte criei o Desencontro, que acabou se tornando um grande sucesso, ao ser o primeiro grande evento do Nordeste a reunir os melhores nomes do Brasil numa Capital, falando e discutindo, essencialmente,a Internet e mídias sociais.

Cláudia: É tipo a Campus Party, só que em dimensão menor?

Emerson: Isso, seria, melhor dizendo a Campus Party sem o acampamento e com a praia. Uma espécie de Praia Party de tecnologia. Não comparo com a Campus que é um evento internacional que chegou aqui, tem apoio fabuloso e é um evento fenomenal. Mas fico contente quando há esse reconhecimento. A Campus está chegando a Recife agora, sinal de que nossa ideia foi muito boa em fazer um evento assim no Nordeste. Mas cada um tem as suas diferenças e semelhanças.

Mica: O Desencontro está chegando, o que podemos esperar para o evento este ano?

Emerson: Muita coisa boa mesmo. Terá um dia a mais, mais conteúdo e mais nomes. Mas contará também com o mesmo clima debochado. Painéis sérios mas um palco exclusivo também para apresentações artísticas, musicais, stand ups. Não perderemos nunca nossa identidade de ter o humor cearense temperando o ambiente e o final de semana. Senão não seria um Desencontro. Seria apenas mais um Encontro como vários outros (que são bons) mas não é nosso propósito único.

Cláudia: Como é ser um formador de opnião no twitter e facebook? Fiquei sabendo que você é muito popular no twitter e sempre sobe assuntos no TT, deve ser bem divertido.

Emerson Damasceno: Olha, é algo meio inusitado para mim. Nunca vi "isso chegando". Sou mais um que tem uma certa influência. Mas o saboroso dessas mídias novas é o compartilhamento, o agregrar de ideias. Ninguém efetivamente é influente sozinho. Somos apenas com nosso público, do qual também somos públicos. É a democratização, tão sonhada, dos meios de comunicação. Não é a ideal ainda, está longe, mas é um ótimo começo. 

Mica: Engraçado conhecer um amigo, tomar uma cerveja e depois descobrir que ele é o cara que força hashtags no twitter, seguido até pela minha sobrinha...

Emerson Damasceno: kkkkkkkkk Que massa mesmo. Querem outra coisa fantástica? Meu filho me chamar para mostrar um vídeo incrível, que o fez rir a tarde toda. É do Felipe Neto que vem ao Desencontro pela segunda vez e é meu amigo. As coisas estão tão ligadas que até nós somos surpreendidos com essa proximidade que o ambiente online proporciona. 

Mica: Alguns esbravejam que a internet separou as pessoas, nos isolou em quartos e salas na frente do computador. Pra mim foi ao contrário, a internet só me trouxe pessoas e muito mais parecidas comigo do que as do dia a dia. Você vê isso também?

Emerson: Pois é, eu acho a mesma coisa. A questão é que há um hibridismo, que muitos teóricos já comentam. Sou até mais radical nisso. Acho q vida somente uma. Ao estarmos (TAMBÉM) online, estamos dando um prolongamento de nossas relações socias. Isso somente nos ajuda a criar mais laços. Não enxergo o contrário.

Mica: E o amor? (é um blog feminino, adoramos falar de amor!)

Cláudia: E falar mal de homens também, rs

Emerson: Olha é meu melhor momento. Sempre :) kkk muita gente pensa que eu minto ou exagero. Não, sou apaixonado pela vida. Acho o amor essencial em tudo que se faz, que se viva. E eu adoro os blogs femininos, a gente merece bons puxões de orelha mesmo. Essa doçura feminina nos faltava mais online. As mulheres também chegaram ao ambiente online (depois de blogs maravilhosos) com todo o espetáculo que possuem. Adoro!

Mica: Como mulher, ler blogs femininos é uma benção. Enfim algo que realmente é voltado para nós e que conta histórias que nos são comuns. Era ruim estar fadada a visão masculina ou a visão de nos preparar para os homens. Com certeza, algo que a internet permitiu, pois qualquer um pode simplesmente abrir uma conta e começar a escrever. Não é libertário?

Emerson: É sim. Eu acho que um pouco além disso, em consonância com isso, nós temos hoje um canal para as minorias, onde todos tem vez e voz. A própria base da sociedade, eterna e olha como, eterna ouvinte, passou a ser emissora também de conteúdo. O Portal Voz da Comunidade, do Morro do Alemão no RJ e um exemplo disso. Ele inclusive estará presente no Painel de ativismo no Desencontro. Isso faz a diferença, ajuda a começar a reparar injustiças históricas de nosso País.

Cláudia: Pra mim o maior  exemplo foi o  do caso STOP  Sopa, o movimento que teve uma repercussão incrível, exemplo de luta por aquilo que se acredita.

Emerson Damasceno: Também. Mas acho que a Primavera Árabe ainda mais emblemática dessa nova realidade da comunicação, Claudia. Foi um movimento alicerçado nas mídias sociais e que ganhou força através delas. Sem tais mídias, os canais convencionais controlados pelos Estados Árabes como Egito, Tunísia, Baherin etc não teriam eco.


Mica: Isso me lembra uma entrevistada nossa, a Paola, que participou ativamente da revolução no Egito, através do celular. Agora Emerson, porque você pratica bullying, humilhando todos os pobres coitados que não têm sol, mar e praia o ano inteiro?

Emerson Damasceno: kkkkk não é bullying. Eu sou um bairrista descarado. Amo muito Fortaleza. Por isso adoro provocar. Aproveito e convenço os amigos e amigas a virem para cá e ao Desencontro também :D



Mica: Para terminar: muitos dos nossos leitores são amigos que vieram do máfia, quer falar um pouco desta experiência?

Emerson Damasceno: Claro! Os games online são uma faceta tão excepcional das mídias sociais que nós somos prova disso :) É algo fantástico, são números incríveis e mostram como o simples fato de jogar determinado jogo pode se tornar também uma forma de se conhecer novas pessoas. O Mafia Wars e outros que a Zynga produz tem milhões de usuários somente no Brasil e são um número forte de quem usa a internet. Acho fantástico. E vão no caminho da convergência. Cada vez mais redes sociais integram diversas mídias (jogos, blogs, fotos, vídeos). Enfim, o que é mais ímpar a ser destacado nessa tendência global é o social. As pessoas querem e precisam estar juntas. As consequências disso são ainda inimagináveis. Mas com um mundo mais curto, menos frio e mais conhecido, será até mesmo mais difícil se imaginar um mundo mais violento, querem um exemplo? Há clãs de jogos online que são amigos em jogos como o Mafia Wars. Um País com intenções beligerantes irá enfrentar ainda mais problemas internos quando os seus cidadãos tiverem laços (mesmo que online) com Países "invadidos" ou guerreados. O mundo cada vez mais caminha para ser um só...

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